Por que é importante o desenvolvimento delas em sala de aula?

Você sabe o que são habilidades socioemocionais? São habilidades que lidam tanto com a parte social quanto com a parte emocional do ser humano. Esse foi o tema abordado na Bett Brasil Educar, no dia 12 de maio, pelo especialista Caio Lo Bianco. Além de educador, Lo Bianco é também gerente do Projeto de Habilidades Socioemocionais da Eleva Educação e do Laboratório Inteligência de Vida (LIV). Ele começou a sua palestra com a seguinte história: “uma vez, em uma reunião, um designer me perguntou: ‘se as habilidades socioemocionais fossem uma pessoa, que pessoa seria?’. A primeira pessoa que veio na minha cabeça foi a Malala”.

Malala Yousafzai é uma jovem ativista paquistanesa de 19 anos, que luta, principalmente, pelo direito das meninas e pelo acesso à educação. Em 2009, quando a Malala tinha aproximadamente 11 anos, ela escreveu um blog anônimo para a BBC, contando como era o seu dia a dia na vila em que morava, que era controlada pelo grupo talibã. “A história da Malala representa o que eu acredito que sejam habilidades socioemocionais”, diz Lo Bianco. “Ela tornou pública uma história que acontecia em uma pequena vila no Paquistão. Isso para mim, é uma grande habilidade de comunicação”.

Em 2012, a garota paquistanesa sofreu um atentado, no qual levou dois tiros, um deles, inclusive, atingiu a cabeça. “Esse episódio mostra uma grande habilidade de perseverança. Mesmo depois disso, ela não desistiu na sua defesa de direitos humanos e do acesso à educação. Ela tanto não desistiu, que se tornou a pessoa mais jovem a ganhar um prêmio Nobel da paz e fez um dos discursos mais emocionantes da história”, relata. “Alguns podem questionar: ‘mas a Malala já nasceu com essas habilidades’. O primeiro ponto de esclarecimento é que: habilidades socioemocionais não são habilidades natas. É possível aprender, praticar e ensinar. É possível desenvolver habilidades socioemocionais, principalmente na escola e principalmente nos primeiros anos de educação”, diz o especialista. Segundo ele, trabalhar essas habilidades é algo muito importante pois pode aumentar a performance acadêmica e reduzir os níveis de depressão.

A necessidade de desenvolvimento dessas habilidades é vista, inclusive, sob a visão dos professores, sem que eles mesmos se deem conta. “A maioria das vezes em que eu entrei em uma sala dos professores eu vi professores falando dos alunos e, na grande maioria das vezes, reclamando dos alunos e de algumas de suas habilidades e características”, diz Lo Bianco. É comum que os educadores almejem que seus estudantes sejam mais disciplinados, independentes, felizes, solidários ou colaborativos, por exemplo, por isso o desenvolvimento das habilidades socioemocionais é importante.

E isso é válido, não apenas no que diz respeito aos alunos, mas também com relação à admissão de professores em escola. “Eu tenho certeza que vocês, assim como eu, já entrevistaram professores com currículos excelentes, mas quando você os coloca em frente ao quadro negro, simplesmente, não rola porque faltam habilidades socioemocionais”. A questão é que habilidades socioemocionais são importantes para a sociedade como um todo. “Uma pesquisa recente que chama muita atenção é o valor econômico do desenvolvimento das habilidades socioemocionais, realizado pela Universidade e Columbia. A cada 1 dólar que nós, enquanto sociedade, investimos em programas de habilidades socioemocionais, temos um retorno de 11 dólares”. Embora o intuito não seja monetizar de alguma forma essas habilidades, como o próprio Lo Bianco ressalta, esse dado acrescenta informações para reforçar o quanto essas habilidades são importantes.

Como desenvolver as habilidades nos alunos

Segundo Lo Bianco, é preciso conectar para redirecionar: “normalmente, diante de um comportamento, a gente tenta redirecionar esse comportamento na primeira instância. A gente esquece que é preciso conectar com a criança antes de redirecionar”. Um exemplo, é a técnica adotada pelo Príncipe Wiliam no que diz respeito ao seu filho: ele frequentemente é visto abaixado, nivelando o seu olhar ao olhar da criança. “Isso mostra empatia, isso mostra conexão e só depois de conectar com essa criança é possível redirecionar um comportamento”. Vale lembrar que essa conexão não é necessariamente instantânea. Se uma criança está “fazendo birra”, por exemplo, essa conexão não vai ocorrer, é preciso que ela se acalme antes.

Príncipe George interage com o pai e com Barack Obama / Imagem: Reprodução

É possível desenvolver as habilidades socioemocionais diariamente

Toda aula é uma oportunidade para a gente desenvolver habilidades socioemocionais. “Tem muita gente que vê habilidades socioemocionais como algo separado do conteúdo, mas na verdade, eles estão intimamente ligados”, explica o especialista. Qualquer professor, de qualquer disciplina tem espaço para fazer isso, só é preciso planejar. Um dos exemplos trazidos é uma prática que tem se popularizado em escolas nos EUA, lá os alunos têm um momento para cumprimentar os colegas. Todos os alunos se cumprimentam de diversas formas, com toques ou movimentos que eles inventaram. “Você faz isso com aluno que estudam na mesma escola, se veem praticamente todo dia e não se falam, não se conhecem de verdade”. Essa simples ação ajuda na conexão entre eles.

Outro exemplo, é que dividir a sala em quatro cantos, cada um deles direcionado a um posicionamento: “concordo totalmente”, “concordo”, “discordo” e “discordo totalmente”, por exemplo. Cada aluno escolhe o canto em que quer ficar de acordo com a sua opinião em relação a um tema específico – que pode ser desde uma política pública, até um episódio da história. Isso pode ser feito em qualquer aula, em qualquer dinâmica. Para Lo Bianco, não se pode ignorar que há três características específicas importantes para desenvolver as habilidades socioemocionais: fala, movimento e interação. “Se só o professor está falando, se só o professor está se movimentando, se só o professor está interagindo, só o professor está aprendendo”.

Sentimentos não são bons nem ruins

Um aspecto muito importante na construção das habilidades socioemocionais é a compreensão dos sentimentos. Não é possível evitar um sentimento. Dizer “não fique com raiva”, “não fique triste” ou “não tenha medo” é prejudicial para as crianças e não sequer coerente, visto que nós mesmos não conseguimos controlar os nossos sentimentos. Dessa forma, parece que o sentimento é errado, quando na verdade, não existe certo ou errado. “Não podemos controlar nem evitar o que estamos sentindo, mas podemos escolher o que fazer com esse sentimento”. Isso é importante porque gera a ideia de que todos os sentimentos são ‘ok’, mas nem todos os comportamentos são.

Livia é jornalista, formada pela Faculdade Cásper Líbero (2014) e pós-graduanda em Design Digital e Novas Mídias pela Faculdade Belas Artes. Foi repórter do Guten News até 2016 e atualmente é coordenadora de conteúdo da Guten Educação e Tecnologia.
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